O Tempo e o Espaço na Modernidade Líquida
O
estar junto na visão política não é o ideal.
O fragmentar sim é o ideal.
De acordo a Zygmund Balman, o meio urbano é civil, um espaço de troca, porém se falta hospitalidade não
possibilitará ao indivíduo ficar a vontade e faz com que sua passagem por ali,
e por muitos outros locais seja rápida, sem muita afinidade, sem a
possibilidade de criar vínculos, de se enraizar.
Destituídos de poder e direitos.
Destituídos de poder e direitos.
Aparentemente
de todos e para todos, assim são inúmeros locais, museus, ruas, praças, órgão
públicos, hospitais, porém com autocontrole e domínio privado – fazendo com que
o indivíduo, a sociedade cuide, zele e acredite ser seu. È de todos, é pra
todos, mas tem domínio, controle. Um bem comum que não pode ser reduzido ao
agregado, passivo de propósitos individuais, compartilhado, sem ser exaurido de
iniciativas individuais.
Há
também o espaço público não civil, porém compartilhado, destinado a servir os consumidores, são eles
os teatros, áreas de esportes, salas, shoppings, pontos/locais turísticos onde
o foco é a ação, e há uma quantidade de indivíduos que passam por ali,
individualmente envolvidos. Sendo a tarefa o consumo e o consumo é um
passatempo absoluto e exclusivamente individual. Uma série de sensações que só podem ser experimentadas e vividas,
subjetivamente – agregadas, breves e superficiais – o templo do consumo bem
supervisionado, vigiado e controlado.
O
equilíbrio quase perfeito de liberdade e segurança.
O
sentimento reconfortante de pertencer, de fazer parte dessa comunidade – essa
comunidade não envolve negociações, nem esforço pela empatia, compreensão e
concessões – diferentemente de uma realidade – do que presenciamos no nosso dia
a dia, junto àqueles que fazem parte do nosso espaço, do nosso convívio - família, amigos, vizinhos, comunidade,
sociedade.
Bauman cita Levi Strauss que afirma que a sociedade divide-se em antropoêmica e antropofágica, a
primeira ao aniquilamento, ao exílio, ao estar só consigo mesmo, à impedir o
diálogo, o contato físico, a interação social, alheio ao outro . Já a segunda
escolha se dá pela suspensão ou aniquilação de sua identidade, de se colocar no
lugar do outro não é por acaso que o medo do estranho, do estrangeiro cresceu,
a medida que essas pessoas ou comunidade foram se afastando “não converse com
estranhos “ ou “esteja sempre por perto”
são ditos populares fruto dessa visão, com isso perdeu-se o direito a troca, a sociedade ganhou camêras
de vigilância instaladas por toda parte
e o medo acentuou-se na sociedade, perdendo o direito a interação, deixando de
criar vínculos – de ter a capacidade de interagir com o outro – sendo isto uma
“arte” que requer estudo e exercício.
A
incapacidade de enfrentar a pluralidade de seres humanos e a ambivalência de
todas as decisões classificatórias, ao contrário, se auto perpetuam e reforçam,
quanto mais perspicazes, mais eficazes à tendência a humanidade e o esforço
para eliminarem as diferenças, tanto mais difícil sentir-se a vontade em
presença de estranhos, tanto mais ameaçadora a diferença, tanto mais interesse
a ansiedade que ela gera, tanto mais estudos, exercícios e esforços.
Tanto
mais se descobre a relação causa e efeito, tanto mais se investe.
Isolamento
– Individualismo.
Como
a ideia de bem comum, socializar-se, cria vínculos com aqueles que estão a sua
volta é vista como ameaçadora, insensata, indevida, improvável. Conduzindo a
sociedade a estar confinados – espaços fechados, isolados, fora de sua
realidade.
Assim
surgem dia após dia, comunidades postuladas, reivindicando seus próprios
“nichos na sociedade” e que inventam cuidadosamente suas próprias raízes, sua
cultura, sua tradição, seus hábitos.
Esforços
para manter a distância, o “outro”, o diferente, o estranho, o estrangeiro e a
decisão de evitar a necessidade de comunicação, negociação e compromisso mútuo,
não são as únicas respostas concebíveis a incerteza existencial enraizada na
nova fragmentada, fragilidade, fluidez dos laços sociais.
“Não
fale com estranhos” – outrora uma advertência de pais zelosos a seus filhos,
hoje se tornou o preceito estratégico da normalidade adulta , reafirmando como
regra de prudência a realidade de nossas vidas em que os estranhos são pessoas
com quem nos recusamos a falar.
Os
governantes impotentes para atacar as raízes da insegurança e ansiedade de seus
súditos, estão bem dispostos e felizes com a situação. Não há interação, não há
troca, não há informação, não há comoção. E o resultado é estar a frente de uma
a sociedade pura, fragmentada, cada qual com seu grupo, desengajada, livre,
fraca, solitária, fragilizada.
De
acordo a Benjamin Franklin “tempo é dinheiro”, definindo o individuo como o
animal racional que faz ferramenta , e se assim o faz, faça bom uso.
O
tempo se torna dinheiro depois de ser tornado uma ferramenta, ou uma arma por
assim dizer, voltada principalmente para vencer a resistência do espaço,
encurtar as distâncias, tornar exequível a superação de obstáculos e limites à
ambição humana.
Quantas
viagens foram possibilitadas por meio dessas ferramentas? Quantas pessoas foram
atingidas por meio dessas ferramentas? Quantas mais, quantas possibilidades.
Com
o advento do vapor e do motor, uma explosão de ideias - um facilitador - a
possibilidade de chegar onde quer que queiram e rapidamente e com segurança e
conforto.
Na
era dos motores quem viajasse mais depressa podia reivindicar mais territórios,
e controla-los e mapeá-los e supervisioná-los. O tempo acomoda tudo, traz
conhecimento, promove experiências.
Pode
se considerar o começo da era moderna as várias facetas das práticas
humanas.
A
relação entre tempo e espaço emancipatório, mutável e dinâmico.
Descartes
já dizia “ penso logo existo” e Rob Shieldes “ ocupo espaço, logo existo” e de
acordo a Michel de Certeu “poder , consiste em territórios e fronteiras” já
Chesswell afirma que “as armas dos fortes são: classificação, delineamento e
divisão”.
Essa
foi a era das maquinas pesadas “quanto mais melhor, quanto maior melhor”
tamanho é poder, volume é sucesso. A conquista do espaço era o objetivo
supremo.
Riqueza
e poder de tamanho e qualidade tendem a serem lentas, resistentes e complicadas de mexer.
Exige ação a longo prazo. Crescem ocupando o lugar e protegem-se, protegendo este lugar.
A
lógica do poder e a lógica do controle estavam estritamente ligadas entre o
dentro e o fora . O tempo para o trabalho era flexível, o tempo para
colonização e fortificação do indivíduo dentro do espaço conquistado era
inflexível, rígido e uniforme – controle absoluto sobre o individuo - Um
casamento sólido entre o indivíduo , o capital e o trabalho.
Com
o advento do capitalismo, do software, da modernidade leve, de formas
organizacionais mais soltas, flexíveis, voláteis, onde o espaço é livre.
O
tempo instantâneo e sem substâncias, múltiplo, complexo e rápido – num universo
de viagem a velocidade da luz , onde o espaço pode ser atravessado literalmente
a esta velocidade, não impondo mais limites a ação e seus efeitos, com isso
perdeu seu valor estratégico. A
estratégia agora consiste não mais no domínio do tempo e espaço mas sim do
indivíduo.
A
leveza e a infinita volatilidade e flexibilidade da agência humana.
Instantaneidade, essa é a palavra chave.
O
domínio agora está nas mãos de pessoas. Em nossa própria capacidade de escapar,
de nos desengajarmos, de estar em “outro lugar” e no direito de decidir sobre a
velocidade com que isso será feito e ao
mesmo tempo de destituir os que estão do lado dominado e de sua capacidade de
parar ou de limitar seus movimentos ou ainda , torna-los mais lentos.
A
batalha crucial é travada entre forças que impunham respectivamente as armas da
aceleração e da procrastinação. Quanto mais ágil, maior o efeito.
O
acesso diferencial , a instantaneidade é
fator crucial, preponderante, entre as versões correntes do fundamento
duradouro e indestrutível das divisões sociais em todas as suas formas ,
historicamente cambiantes. O acesso diferencial a imprevisibilidade e, portanto
a liberdade.
"A modernidade leve permitiu que um dos parceiros saísse da gaiola. A
modernidade “sólida” era uma era de engajamento mútuo. A modernidade “fluida” é
a época do desengajamento, da fuga fácil e da perseguição inútil. Na
modernidade “liquida” mandam os escapadiços, os que são livres para se mover de
modo imperceptível."
E
assim se constituíram as modernidades , pesada, capital, trabalho e dominação.
Sólida, a era do engajamento mítico. Fluida, a era do desengajamento, da fuga
fácil, da perseguição inútil e a modernidade líquida, onde mandam os mais
escapadiços, os que são livres param se mover de modo imperceptível.
Volume
e tamanho deixaram de serem recursos e passaram a se tornarem riscos. Se a
ciência da administração centrava-se em conservar a mão-de-obra e forçá-la,
subordiná-la, hoje, a arte da administração consiste em afastá-los, manter
afastada a mão de obra humana. Forçá-los a saírem e assim serem substituídos
por máquinas, softwares, muito mais fáceis de acomodar, para coordenar, deixando de lado
a tarefa exaustiva do gerenciamento.
Encontros
breves substituem engajamentos duradouros.
Fusões
e redução de tamanho não se contrapõem. A fusão pronuncia uma corda mais longa
para o capital esguio e flutuante – o capital , ganha mais campo de manobra. A
redução de tamanho ganha espaço, maior mobilidade, propulsão e deslocamento
fácil e auto acelerado / agilidade e o medo de perder o jogo da competição fica
para os fracos, os pequenos os desafortunados, ou melhor, aqueles que não
tiveram competência para tal – o maior não se traduz pelo mais eficiente , o
melhor sim, é o mais eficiente.
Um
jogo global onde se arrisca, coloca-se
numa rede de possibilidades. Se jogar, e claro !
A
era do desapego, nada de compromisso duradouro.
A
era do individuo destemido, determinado, imediatista, intenso.
A indiferença em relação à duração transforma a imortalidade de uma ideia numa experiência e faz dela um objeto de consumo imediato: é o modo como se vive o momento que faz desse momento “uma experiência imortal”.
A indiferença em relação à duração transforma a imortalidade de uma ideia numa experiência e faz dela um objeto de consumo imediato: é o modo como se vive o momento que faz desse momento “uma experiência imortal”.
Uma
viagem onde o ilimitado das sensações possíveis ocupa o lugar que era ocupado
nos sonhos, pela duração infinita. E nessa viagem os trilhos continuam a serem
desmontados e remontados a medida que a locomotiva avança e as marcas da
montagem vão sendo apagadas, sem deixar rastros, rapidamente, instantaneamente.
Na mesma rapidez , com a mesma facilidade, com a mesma velocidade com que foram
montadas.
A instantaneidade (a anulação da resistência do espaço e liquefação
da materialidade dos objetos) faz com que cada momento pareça ter capacidade
infinita; e a capacidade infinita
significa que não há limites ao que pode ser extraído de qualquer momento – por
mais breve e “fugaz” que seja.
A
questão agora é encurtar o espaço de tempo da durabilidade, de esquecer o longo
prazo, de focar na manipulação de transitoriedade ao invés da durabilidade, de
dispor levemente das coisas para abrir espaço para outras igualmente
transitórias e que deverão ser usadas instantaneamente, consiste no privilégio de poucos afortunados,
e que faz com que estejam sempre acima.
Manter
as coisas por longo prazo, produto, emprego, vínculo com o futuro, para além de
seu prazo de descarte e para além de seus substitutos novos e aperfeiçoados
estiverem em oferta, é ao contrário, sintoma de privação, ou seja, torna-se
inviável.
A
desvalorização da instabilidade não pode senão anunciar uma rebelião cultural.
Decisivamente o marco mais decisivo na história cultural humana. Consiste em
peneirar, sedimentar, consolidar duras sementes de perpetuidade a partir de
transitórias vidas humanas e de ações humanas fugazes, em invocar a duração a
partir da transitoriedade, a continuidade a partir da descontinuidade e assim
transcender os limites impostos pela mortalidade humana, utilizando homens e
mulheres mortais a serviço da espécie humana mortal.
A
nova instantaneidade do tempo muda radicalmente as modalidades de convívio
humano, tanto pessoal quanto coletiva.
Credibilidade
é um recurso valioso.
Atribuição
da confiança é uma ferramenta, é a arma mais zelosa.
A
escolha racional na era da instantaneidade significa buscar a gratificação,
evitando as consequências e particularmente as responsabilidades que em
consequências podem implicar. Traços duráveis de gratificação de hoje hipotecam
as chances de gratidão do amanhã. A duração deixa de ser um recurso para
tornar-se um risco; o mesmo pode ser dito de tudo que é volumoso, sólido e
pesado – tudo o que impede ou restringe o movimento.
Bauman cita a
visão de Gui Debord, ”os homens se parecem mais com os seus tempos que com seus
pais”.
O advento da instantaneidade conduz o indivíduo a um território não mapeado e não explorado, E esse indivíduo insiste em querer esquecer o passado, e não parece mais acreditar no futuro – mas a memória do passado e a confiança do futuro foram os pilares em que se apoiavam as pontes culturais e morais, entre a transitoriedade e a durabilidade, a mortalidade e a imortalidade.
O advento da instantaneidade conduz o indivíduo a um território não mapeado e não explorado, E esse indivíduo insiste em querer esquecer o passado, e não parece mais acreditar no futuro – mas a memória do passado e a confiança do futuro foram os pilares em que se apoiavam as pontes culturais e morais, entre a transitoriedade e a durabilidade, a mortalidade e a imortalidade.
